Publicado em: Valor Econômico | Empresas
Por Virgínia Silveira | 20 de Janeiro de 2016

Valor_high_tech

Quatro balões com câmeras de alta resolução desenvolvidos no Brasil pela Altave, empresa que fica em uma incubadora de alta tecnologia no Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em São José dos Campos, vão apoiar o esquema de segurança dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Sessenta policiais militares e 20 guardas municipais do Rio estão sendo treinados pela Altave para operar os balões. Os equipamentos foram entregues em outubro. É a primeira vez que eles farão o monitoramento de um grande evento mundial, o que despertou o interesse de outros países.

Representantes da cidade de Tóquio, sede da Olimpíada de 2020, e do Qatar, que receberá a Copa de 2022, estiveram no Brasil para conhecer mais detalhes sobre o sistema, capaz de detectar a presença humana a 13 km de distância. A previsão é que o Rio receba perto de meio milhão de turistas durante os jogos, que ocorrem no período de 5 a 21 de agosto.

As imagens produzidas pelas 13 câmeras instaladas em cada um dos balões serão enviadas, em tempo real, para o Centro Integrado de Comando e Controle Regional (CNDEN). O nome do fornecedor das câmeras não foi divulgado, a pedido da Secretaria Extraordinária de Segurança de Grandes Eventos (SGE), do Ministério da Justiça. O software de gestão do sistema, instalado nas câmeras, também foi desenvolvido pela Altave.

O balão foi projetado para operar por até 72 horas, podendo ser recarregado em apenas 15 minutos. Os balões que serão usados na Olimpíada podem alcançar até 230 metros de altura e suportar ventos de até 80 quilômetros por hora.

Uma das principais vantagens da utilização dos balões no monitoramento contínuo é o custo de operação, disse Bruno Avena de Azevedo, um dos diretores da Altave. “O custo de hora voada é da ordem de R$ 50, enquanto outras plataformas chegam a R$ 1 mil por hora.”

Para conquistar o contrato, avaliado em R$ 23,1 milhões, a Altave enfrentou concorrência internacional, disputada por grandes competidores do setor aeroespacial, como a americana Boeing e o grupo francês Sagem.

“A escolha final teve como critério o preço, mas nossa proposta técnica foi avaliada de forma detalhada durante dois anos”, disse Azevedo.

A entrega dentro do prazo estipulado de seis meses e os resultados positivos dos testes de operação dos equipamentos deixaram os clientes bastante satisfeitos, afirmou o executivo.

Embora com apenas cinco anos de existência, a Altave nasceu sustentada pelo conhecimento transmitido por instituições de prestígio, como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA); a Nasa, a agência espacial americana; e a Universidade Técnica de Berlim (Alemanha), onde os dois sócios fundadores da empresa, hoje com 29 anos de idade, fizeram seus cursos de graduação e pós graduação.

“Na Universidade de Berlim havia um grupo de pesquisas na área de dirigíveis para a Airbus”, disse Leonardo Mendes Nogueira, outro sócio da Altave. Bruno Azevedo concluiu seu mestrado em balões para exploração planetária no Laboratório de Propulsão de Jatos da Nasa. A ideia de criar a empresa nasceu quando os dois sócios ainda faziam o curso de engenharia aeronáutica no ITA.

O fornecimento dos balões para os Jogos Olímpicos foi o primeiro grande contrato da Altave e o trouxe desdobramentos rápidos e muito positivos em termos de novos negócios, disse Nogueira. Bem antes disso, no entanto, com apenas seis meses de atividade, a empresa já havia fornecido seus primeiros balões para a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf).

“Os balões foram usados para otimizar a inspeção de linhas de transmissão de energia da Chesf feitas por outras plataformas, como drones”, disse o executivo. Além da Chesf, a Altave já forneceu balões para a Polícia Militar de São Paulo, que os usou no monitoramento da Operação Romeiro, em Aparecida. Os balões também já foram usados no monitoramento de áreas agrícolas e em ações de marketing pela empresa Itaipava.

O Exército brasileiro testou os balões da Altave durante as operações de pacificação da favela da Maré no Rio e em um seminário em Manaus, que mostrou o emprego desse tipo de sistema no monitoramento da Amazônia.

A Altave foi convidada pelo Exército para apresentar proposta de fornecimento de balões a dois programas estratégicos de defesa: o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron) e o Proteger, de proteção de estruturas estratégicas terrestres.

No mercado brasileiro, a Altave é a única empresa que produz balões para múltiplas aplicações, em especial telecomunicação e monitoramento urbano. O conhecimento adquirido pela empresa, que tem 25 funcionários, dos quais 15 engenheiros, teve o apoio de instituições de fomento.

A Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) destinou R$ 1,5 milhão para o desenvolvimento de projetos na empresa, e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) aportou R$ 600 mil para seis projetos, sendo que três deles já foram concluídos.

Dois empresários brasileiros, formados pelo ITA, investiram R$ 1,5 milhão na Altave por acreditarem no potencial da empresa, informou Nogueira. Os empresários, cujos nomes não são divulgados, não possuem participação acionária na Altave, mas fazem parte do conselho de administração.

A parceria com o ITA e os Institutos do DCTA também ajudaram no processo de consolidação da empresa, afirmam os diretores da Altave. “O próximo passo dessa parceria será a criação de cursos de pós-graduação acadêmico industrial no ITA na área de plataformas mais leves que o ar. “Com isso estaremos despertando novos talentos nessa área e qualificando pessoas para trabalhar na empresa”, disse Nogueira.

Fonte: Valor Econômico