Publicado em: Aerovisão Jul/Ago/Set/2017 | Entrevista com Major-Brigadeiro Fernando Cesar Pereira Santos
Por Tenente Jornalista Iris Vasconcellos | 18 de agosto de 2017

“Precisamos investir, progressivamente, em meios satelitais e espaciais que vão nos proporcionar ferramentas para a Força Aérea do futuro”. Com essa frase, o Vice-Diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), Major-Brigadeiro Engenheiro Fernando Cesar Pereira Santos, resume os próximos passos do Brasil em relação aos engenhos espaciais.

Após o lançamento do primeiro satélite geoestacionário brasileiro, que já serve à comunicação militar e governamental e vai atuar na inclusão digital dos brasileiros (leia mais na página 50), a Força Aérea articula os próximos passos no fomento à questão espacial, em parceria com outros órgãos governamentais.

Designada pela Estratégia Nacional de Defesa, a Força é responsável, no âmbito do Ministério da Defesa, por encabeçar a corrida brasileira rumo ao domínio de tecnologias espaciais. De acordo com o entrevistado, é no Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE), que prevê aquisição e desenvolvimento de uma constelação de satélites, que está o futuro da Força. “O Brasil tem um plano para a área espacial e nós estamos perseguindo esses objetivos”, afirma.

Por que o Brasil precisa ter acesso ao espaço?

O País já tomou uma decisão, a de investir nessa área, e isso não é de hoje. Desde o momento em que foram criadas as estruturas básicas, na década de 1960, com a criação do INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], do CLBI [Centro de Lançamento da Barreira do Inferno] e IAE [Instituto de Aeronáutica e Espaço], além da legislação que as regula, estava decidido que isso é importante para o Brasil. O País tem um plano para a área espacial e nós estamos perseguindo esses objetivos. No meu ponto de vista, esse é um aspecto de importância indiscutível, um investimento que precisamos fazer. Eu avalio que quatro aspectos da geopolítica brasileira não nos permitem ficar de fora dessa busca pelo domínio espacial: PIB, posição geográfica, população e espaço territorial.

É preciso também observar e procurar entender por que os países desenvolvidos têm investido tanto nisso A riqueza do conhecimento é a maior que podemos ter. Países que foram destruídos por guerras continuam ricos e influentes em função dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Países que eram essencialmente agrícolas e pouco desenvolvidos, se transformaram em Estados pujantes pela mesma razão.

Qual a relação da Força Aérea Brasileira com essa questão?

Para nós, é uma questão de futuro.

Nos próximos anos, quem dominar o espaço vai dominar importantes aspectos de defesa. O poder aéreo precisa desse arcabouço de equipamentos e tecnologias para fazer frente a novos cenários que se descortinam. Nós precisamos, de uma forma progressiva, investir em meios satelitais e meios espaciais que vão nos proporcionar ferramentas para a Força Aérea do futuro. Por outro lado, também há uma designação legal para fomentar a questão espacial: pela Estratégia Nacional de Defesa, assim como o Exército ficou responsável pela área cibernética e a Marinha pela área nuclear, nós fomos indicados para, em conjunto com outros órgãos civis que já atuam nessa área, incrementar a projeção do Brasil no espaço.

O que a FAB tem feito pela questão espacial?

Recentemente, atuamos, junto com a Telebras, no lançamento do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas. Ele foi lançado no início de maio lá de Kourou [na Guiana Francesa]. Nós compramos o satélite de um fabricante estrangeiro e ele foi lançado de uma base francesa. A aquisição prevê cláusulas de off -set para absorção de conhecimento e a operação do satélite já está sendo feita pela Força Aérea Brasileira por meio do COPE [Centro de Operações Espaciais], que é uma estrutura interna ao Comando de Operações aeroespaciais.

Os primeiros satélites vão ser assim. Na sequência dos trabalhos, teremos o nosso satélite e o nosso lançador, em parceria com o INPE. Primeiro vamos comprar, depois vamos desenvolver e lançar.
Isso tudo está previsto no PESE, o Programa Estratégico de Sistemas Espaciais, que é uma das frentes que a Força Aérea está encabeçando.

Trata-se de uma constelação de satélites, todos eles de uso dual – ou seja, servem tanto à defesa quanto às áreas do meio ambiente, da agricultura, à Polícia Federal. Essa dualidade é muito importante.

Qual a finalidade dos satélites previstos no PESE?

Já estamos trabalhando na especificação deles. Em um primeiro momento, faremos uma licitação para alugar um satélite de órbita baixa, que permite a observação da superfície da Terra. Hoje em dia, vários órgãos governamentais compram a mesma imagem e nós vamos otimizar esse procedimento.

Lá na CCISE [Comissão de Coordenação e Implantação de Sistemas Espaciais] estamos trabalhando fortemente para procurar todos os possíveis interessados no uso das imagens geradas pelo satélite que vamos alugar. Nós vamos procurar todos os clientes; a minha equipe já está em campo trabalhando nisso.

Essa iniciativa deve trazer economia de recursos?

Existem recursos já alocados pelos Ministérios para diversas empresas, que poderiam ser canalizados a esse satélite. E existe uma demanda reprimida, que é o quanto se precisaria e não está sendo atendido. A Polícia Federal, o Ministério da Agricultura, para citar apenas alguns exemplos, precisam de muito mais imagens do que eles dispõem, e essa parceria vai trazer não só economia, mas vai ampliar o espectro de demandas.

Embora o envolvimento da FAB na questão espacial tenha ganhado proporções maiores nos últimos anos, com o SGDC e o PESE, o envolvimento da instituição é bem mais antigo. Quando começou?

Desde a década de 1950, temos pessoal e uma estrutura pronta para assumir este tipo de desafio. Temos, no DCTA ,112 projetos em andamento. As coisas estão acontecendo.

A área de ciência e tecnologia demanda recursos e a velocidade dos projetos é proporcional à aplicação deles. Mas nós estamos andando, progredindo. Nós já temos o principal, que é a estrutura, que poucos países do mundo detêm. Acompanhei a inauguração de um espaço do ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica] no Parque Tecnológico de São José dos Campos (SP). O ITA possui uma incubadora de novas empresas de tecnologia, a Incubaero, e, na ocasião, uma das empresas estava deixando de ser incubada e passando para o parque – a ALTAVE. É uma empresa que vendeu serviços para a Olimpíada, um balão que produz imagens para a área de segurança, de alta tecnologia. Uma empresa de sucesso hoje.

Quais os desafios para o desenvolvimento da área espacial no Brasil?

Eu não gosto de reclamar de falta de recursos humanos e financeiros, mas esta é uma área que requer vultosos investimentos e equipes especializadas. Precisa-se aportar um grande volume de recursos ao longo de muito tempo. E também tem outro aspecto importante: as empresas da área de ciência e tecnologia são muito instáveis. Essas empresas precisam ser apoiadas e receber carga de trabalho a longo prazo.

O que o Sr. entende que poderia contribuir para a projeção do Brasil no espaço?

Nós temos os meios, que é o mais difícil. Como todo projeto de Estado, a sociedade – e quando eu digo sociedade, eu não me refiro só ao governo – tem que estar engajada em um projeto como esse. Ele precisa do apoio e respaldo da sociedade. Os brasileiros precisam afirmar: “eu preciso ter acesso ao espaço”. Por exemplo, a Índia bateu um recorde: lançou 104 satélites em um só foguete, em fevereiro deste ano. Foi uma decisão daquela sociedade e eles evoluíram rapidamente.

Fonte: Revista Aerovisão