Publicado em: Valor Econômico | Anuário Inovação Brasil: As 100 empresas mais inovadoras
Por Jacilio Saraiva | 19 de julho de 2016

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Fapesp tem orçamento de R$ 60 milhões para apoiar projetos de pequenos empreendedores sem exigir reembolso mesmo se o plano fracassar

Embriões animais produzidos in vitro e balões que vão ajudar a Polícia Militar na segurança dos Jogos Olímpicos 2016, no Rio de Janeiro. Essas são algumas das inovações derivadas de projetos apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe).

Criada em 1997, a iniciativa apoia financeiramente estudos científicos ou tecnológicos realizados por micro, pequenos e médios negócios no Estado de São Paulo. O orçamento é de até R$60 milhões ao ano, ou até R$1,5 milhão de empréstimo por empresa. O recurso concedido é não reembolsável- o empreendedor fica dispensado de devolver o dinheiro se o plano de negócios fracassar.

‘O objetivo do Pipe é criar uma cultura no país de que o investimento em pesquisa traz retorno econômico e gera empregos”, explica Sérgio de Queiroz, coordenador adjunto de pesquisa para a inovação da Fapesp. “É preciso entender que o risco faz parte de qualquer estudo científico, e o pesquisador ou empreendedor não podem ser punidos financeiramente se a ideia não der certo.” Em 19 anos de atividade, o Pipe financiou 1,5 mil projetos de pesquisa em cerca de mil empresas. Atualmente, 216 apoios estão em andamento.

Uma das principais vantagens da ação segundo Queiroz, além da subvenção financeira, é que o interessado só é obrigado a constituir uma companhia se o pedido de apoio for aprovado. Estima-se que centenas de negócios, que talvez nunca saíssem das gavetas, foram criadas na esteira do Pipe.

Para receber as verbas, é preciso ter uma companhia sediada no Estado de São Paulo com até 250 funcionários. O objetivo do empreendimento deve ser a busca de uma inovação ou o aperfeiçoamento de um produto já existente. “O autor da proposta não precisa ter mestrado ou doutorado para pedir o apoio”, diz. Mas os projetos selecionados devem ser desenvolvidos por pesquisadores associados ou com vínculo empregatício com as empresas.

Na primeira fase do programa, que dura até os nove meses, é possível solicitar até R$200 mil para demonstrar a viabilidade técnica e comercial da ideia. Na segunda etapa, com duração de dois anos e financiamento de até R$1 milhão, deve-se desenvolver um protótipo que prove a eficácia do projeto original. O Pipe realiza quatro chamadas fixas de propostas ao ano.

Entre os concorrentes aos editais da entidade e que já colhe resultados importantes está a ALTAVE, dos sócios Bruno Azevedo e Leonardo Nogueira. A empresa, fundada em 2011, logo após a formatura da dupla no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), será uma das fornecedoras de equipamentos de segurança para as Olimpíadas 2016, no Rio de Janeiro.

Com 22 colaboradores, especializou-se na fabricação de balões para os setores de vigilância e telecomunicações. Nos Jogos Olímpicos, vai fornecer unidades com câmeras e equipamentos de comunicação para a Polícia Militar e a Guarda Municipal. “Em seis meses, projetamos, testamos e entregamos as soluções completas”, diz Azevedo.

Durante o evento, serão usados quatro balões de gás hélio, de 6 metros de diâmetro cada uma. Com as câmeras, vão vigiar uma área de 4 quilômetros de raio, a 200 metros de altura, com imagens em 360 graus. As invenções também podem ser adaptadas para vigilância em áreas fronteiriças e como apoio ao acesso à internet em regiões remotas.

A ALTAVE entrou no Pipe em 2011 e já recebeu fomento de R$253 mil de recursos de subvenção da Finep Inovação e Pesquisa, parceira da empresa e da fundação paulista. A verba do Pipe permitiu a compra de materiais, a construção de protótipos e até pesquisas para testar a resistência dos balões a tiros. “O recurso ainda viabilizou o projeto em uma fase que, no Brasil, dificilmente encontrará empresas dispostas a investir”, analisa. Passar pelo crivo da Fapesp foi um aval importante para receber um aporte de investidores-anjo avaliado em 1,3 milhão.

Azevedo diz que, quando o apoio financeiro da agência começou, em 2012, a ALTAVE não apresentava faturamento. Em 2015, faturou R$23,2 milhões. Neste ano, passou a vender uma plataforma aeronáutica para que outros integradores ou clientes possam incorporar novo tipos de sensor aos balões. “Os resultados com os primeiros equipamentos serão utilizados nos estudos para criação de uma nova versão, com capacidade de permanecer no ar por até seis meses, sem manutenção”, diz Nogueira.

Na In Vitro Brasil, que ingressou no Pipe em 2009, o objetivo da sócia Andrea Basso é aperfeiçoar a produção, em laboratório, de embriões bovinos. Com sede em Mogi Mirim (SP) e um quadro de 150 funcionários, atende a fazendas de leite e carne que buscam o melhoramento genético do rebanho para otimizar a produção.

“O auxílio financeiro da Fapesp permitiu a realização de análise de alto custo que provavelmente não seriam possíveis somente com os recursos da companhia”, diz Andrea. Um dos processos mais recentes desenvolvidos é a biópsia de células embrionárias. A novidade possibilita a seleção genética dos animais antes mesmo de os embriões serem transferidos para as receptoras.

A empresa faturou R$28,5 milhões em 2015 e cresce cerca de 30% ao ano em média desde 2007. Há dois anos, atua nos Estados Unidos e recentemente fechou, no Brasil, um contrato com a indústria de carnes Marfrig. “Agora, estamos focados na abertura do mercado externo”, diz Andrea.

Fonte: Valor Econômico – Anuário Inovação Brasil: As 100 empresas mais inovadoras